Fabio Colombo
Sempre que ocorrem crises, com quedas significativas dos mercados acionários, observamos investidores desesperados, em pânico, procurando por conselhos sobre como se comportar em tais momentos. Infelizmente, nesse caso, vale o ditado de "só se colocar a tranca, após a porta arrombada", com a agravante de que os cuidados prévios são, na grande maioria, esquecidos, assim que a crise se encerra.
Listo alguns pontos a serem seguidos, a fim de evitar comportamentos incorretos em ocasiões de estresse:
- Planejar: É muito comum vermos investidores entrarem nos mercados sem qualquer planejamento, sem avaliar os riscos envolvidos e o potencial de perdas. Enquanto os mercados são favoráveis, o potencial problema fica negligenciado e só aflora quando os ventos mudam de rumo, pegando os investidores totalmente despreparados. Portanto, planejar o máximo de exposição em ativos de risco, em acordo com o seu perfil de risco, é fundamental.
- Disciplina: Na prática, noto que é muito raro encontrar investidores disciplinados, que sigam o que foi planejado. Por exemplo, se o investidor definiu em 20% sua exposição máxima em ações e o mercado favorável fez com que esse porcentual crescesse para 25%, o correto seria reduzir a posição em 5%, fazendo-a retornar aos 20%. Infelizmente, o que ocorre na prática é o inverso, ou seja, investe-se mais recursos durante o processo de alta e resgata-se na baixa.
- Controlar as emoções: A ganância e o medo são as emoções que nos impedem de ter sucesso. A ganância aparece em períodos de altas dos mercados e o investidor acredita que essa tendência persistirá indefinidamente. Com isso, deixa de realizar lucros e, pior ainda, continua comprando. Já o medo se manifesta na situação oposta, com o mercado em baixa. O investidor teme que suas perdas aumentem e acaba se desfazendo de suas posições. Por conseqüência, o conselho mais óbvio de "comprar na baixa e vender na alta" é invertido para a danosa postura de "comprar na alta e vender na baixa".
- Visão de longo prazo: Não há dúvida de que quem procura só analisar o curto prazo pode estar sacrificando, com grande probabilidade, os resultados de longo prazo. O investidor ao considerar somente os recentes desempenhos e o curto prazo passa por duas situações: 1) Em momentos de crise, há um excesso de conservadorismo, o que o impede de fazer compras nos períodos de baixa; 2) Em contrapartida, em momentos de euforia dos mercados, o investidor é levado comprar após as altas, ao invés de vender. Esses investidores são impulsionados pela crença de terem a habilidade, que certamente não possuem, de conhecerem os vales de baixa e picos de alta dos mercados. Dessa maneira, tentam em vão surfar nas tendências do mercado, prejudicando os resultados no longo prazo.
- Evitar concentração de investimentos: a concentração dos investimentos em poucos ativos eleva o risco de mercado, ou seja, o investidor pode ganhar ou perder muito. Ao diversificar as aplicações, é possível compensar o eventual baixo desempenho de determinado ativo com outro de melhor desempenho. Além disso, diminui muito o risco de crédito. Em minha longa experiência de mercado, vivenciei várias situações de empresas de primeira linha que quebraram deixando com grandes prejuízos investidores que se concentraram nesses papéis.
O investidor que seguir essas recomendações dificilmente será pego de surpresa nas crises, pois estará comprando gradativamente durante as baixas e realizando a "semeadura". Por outro lado, venderá, também gradativamente, ao longo das altas, obtendo a "colheita".
É importante notar que a grande questão é a duração dos períodos das semeaduras e colheitas, que todos tentam, em vão, adivinhar. Por isso, a importância do advérbio "gradativamente" na maneira de atuar junto ao mercado acionário. Desse modo, fica evidente que durante a semeadura o investidor passará por momentos difíceis e prejuízos transitórios, enquanto realizar as compras gradativas e os preços estiverem caindo. Para somente obter lucros, durante a colheita, quando o processo de alta se iniciar. A semeadura, às vezes longa, com seus inerentes desconfortos, é o preço que o investidor paga para ter sucesso. Por esta razão, costumo colocar que o investidor só esta preparado para investir em ações quando se alegra com a chegada da fase de baixa.
Infelizmente, na prática, os investidores esquecem muito rapidamente as lições das crises, as quais ocorrem ciclicamente, e voltam, recorrentemente, a cometer todos os equívocos que comentamos acima quando a próxima crise vier. Desse modo, diminuem em muito suas chances de êxito.
Fabio Colombo é administrador de Investimentos
E-mail: facolom@terra.com.br
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