domingo, 4 de abril de 2010

Aposentadoria com ações


Com a expansão da bolsa, cresce no Brasil um novo tipo de investidor: o que compra ações para viver de dividendos



Germano Lüders


Por Alexa Salomão | 03.05.2007 | 14h59

Revista EXAME -
Ao longo dos últimos 40 anos, o aposentado paulista Luiz Barsi Filho dedicou-se a comprar uma quantidade considerável de ações. Barsi, de 68 anos, é atualmente o maior investidor pessoa física do Banco do Brasil. Também tem sozinho cerca de 4% da Forjas Taurus, fabricante de armas e ferramentas, e da Unipar, um dos maiores grupos petroquímicos do país. É ainda acionista minoritário da Embratel, posição que o colocou frente a frente com o mexicano Carlos Slim, controlador no Brasil da empresa de telecomunicações -- Slim luta para ter em mãos 100% do capital da Embratel. Mas minoritários como Barsi negam-se a vender suas ações. "Slim é um empresário inteligente e bem-sucedido, e se pretende fechar o capital da Embratel é porque espera lucrar muito com ela", diz Barsi. "Diante dessa perspectiva, faço questão de continuar como seu sócio." Por posições como essa, Barsi é um exemplo acabado de um tipo de investidor que começa a se destacar no mercado brasileiro -- aquele que busca ganhar dinheiro não com o sobe-e-desce diário do preço das ações, mas com os dividendos, a parte do lucro das empresas distribuída entre os acionistas. "São aplicadores com o olho no médio e no longo prazo", diz José Hugo Laloni, diretor da consultoria LLA Investimentos. "Para eles, o que importa é comprar ações de empresas sólidas e com boas perspectivas de crescimento." Foi exatamente essa a estratégia de Barsi nas últimas quatro décadas -- acumular ações de uma dezena de empresas consideradas prósperas e boas pagadoras de dividendos. Sua meta, desde o início, era poder viver com os rendimentos das ações após a aposentadoria. Com a renda dos dividendos, Barsi leva uma vida confortável e, dizem alguns amigos, tem um patrimônio considerável. Mora em um condomínio fechado no interior de São Paulo, viaja para a Europa quando quer e, ao menos duas vezes por ano, passa temporadas em Buenos Aires, sua cidade predileta. "Consegui o que queria", diz. "Não dependo das migalhas da Previdência Social e tenho uma renda generosa."
Segundo analistas de investimentos, é possível repetir a trajetória bem-sucedida de Barsi. A perseverança de anos de poupança no mercado de capitais pode render cifras milionárias. A pedido de EXAME, a consultoria financeira Economática fez as contas para ver qual seria o retorno de quem investiu 1 000 reais em cada uma das 111 empresas listadas na Bovespa em 1987 (e que permanecem ainda hoje) e reinvestiu todos os dividendos pagos nos últimos 20 anos na compra de mais ações das mesmas empresas. As cinco companhias mais lucrativas do período transformaram o investimento inicial somado de 5 000 reais em um patrimônio de 950 000 reais em ações que pagam um total de cerca de 35 000 reais por ano em dividendos. No passado, poucos investidores aproveitaram essa oportunidade. "Dos brasileiros que investem regularmente na bolsa há mais de 20 anos, nem 1% preocupou-se em acumular dividendos desde o começo", diz Milton Milioni, conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais.
O tempo como aliado
Quem há 20 anos aplicou 1 000 reais(1) em cada uma das empresas abaixo e reinvestiu os ganhos tem hoje rendimento anual de 35 150 reais com os dividendos. Por mês, a renda é de 2 930 reais. Confira abaixo o desempenho de cada ação
Dividendo anual(2)
Telesp ON
20 800reais
Banespa ON
6 140reais
Vale do Rio Doce ON
4 600reais
Unibanco ON
2 400 reais
Lojas Americanas PN
1 210reais

(1) Em valores de hoje, atualizados pelo IPCA
(2) Caso a empresa pague nos próximos 12 meses o mesmo valor dos 12 meses anteriores
Fonte: Economática
Mais recentemente, no entanto, o interesse começou a crescer. Um dos termômetros desse despertar é a expansão dos fundos de dividendos, focados na compra de ações de companhias que pagam os melhores proventos. O fundo do Unibanco, um dos mais antigos, criado em 2000, cresceu 14% desde o início do ano -- resultado acima da média dos demais fundos de ações, que tiveram aumento de 10% no mesmo período. "Nos anos 80, o mercado de capitais no Brasil perdeu credibilidade em razão das várias crises e, por causa dessa lacuna, temos dois tipos bem específicos de investidores em ações", diz André Caminada, da Victoire Finance Capital, empresa de gestão de investimentos para a alta renda. "Há os maiores de 60 anos, que compraram ações na década de 70 e nunca venderam, e os jovens, que agora estão descobrindo o valor dos dividendos e aprendendo a poupar com as ações."
O aposentado Barsi trabalhou como operador da bolsa por 32 anos, e esse histórico ajuda a explicar o sucesso de suas escolhas ao longo dos anos. "Mas não é preciso ser profissional para garantir a aposentadoria com ações", diz ele. "A principal arma é a disciplina." Barsi criou três regras para não perder a motivação. Primeiro, aprendeu a estudar metodicamente a empresa por trás da ação. "Nunca segui um palpite na hora de escolher o papel", diz ele. "Ao comprar a ação nos tornamos sócios da empresa, talvez para o resto da vida. Por isso, é preciso ter certeza de que aquele negócio está sólido, é rentável e tem potencial para crescer no futuro." Feita a escolha, chega a hora de consolidar a posição como acionista, reinvestindo os dividendos na compra de mais ações da mesma companhia. A terceira regra criada por Barsi é nunca vender um papel por necessidade. "O dinheiro não pode ser gasto em hipótese alguma por uns 20 ou 30 anos", diz ele. "Nunca compre ações com um recurso que faça falta para outro investimento, como a compra de um imóvel ou de um carro. Só tire o dinheiro de uma ação se já tiver em vista outra mais promissora." Como prova seu exemplo, qualquer pessoa pode formar a própria carteira e gerenciá-la se fizer o dever de casa. "Quem não tem tempo, competência e principalmente sangue-frio para acompanhar os investimentos deve entregar a carteira a um profissional", diz Adriano Blanaru, analista-chefe da Link Corretora.
Nos Estados Unidos, como seria de esperar da meca do capitalismo, a bolsa e os fundos de ações fazem parte da vida de 44% da população adulta, ou 84 milhões de pessoas. Essa penetração ajuda a explicar o tamanho do maior mercado do mundo, com giro anual de 22 trilhões de dólares. O Brasil, é evidente, ainda está longe de atingir esse grau de capilaridade, mas ocupa atualmente a honrosa terceira posição no ranking das maiores bolsas dos países emergentes. Mesmo num sistema financeiro tão desenvolvido como o americano, porém, viver de dividendos é coisa para uma minoria. Embora quase 80% dos americanos com ações declarem-se interessados em aproveitar os dividendos na aposentadoria, menos de 20% das famílias resistem à tentação de vender os papéis antes da hora. Normalmente, as ações que sobrevivem até a aposentadoria estão na carteira de investidores mais abonados, que podem fazer reservas polpudas por períodos mais longos. Entre as muitas histórias sobre o mercado americano há uma que serve de reflexão para quem pretende usar as ações na aposentadoria. Dizem que, certa vez, um grande investidor confidenciou ao banqueiro JP Morgan que não conseguia dormir de tão preocupado que ficava com suas ações. Morgan respondeu sem hesitar: "Sell down to the sleeping point". Em bom português, venda até o ponto em que você consiga dormir com as perspectivas de ganhos e perdas.

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2 comentários:

Henrique disse...

A estratégia é ótima, porém o investimento como Buy and Hold possui um risco muito grande. Se a empresa que voce escolher quebrar? Se as ações despencarem e não subirem mais? Voce joga fora sua aposentadoria?

Quantas empresas pareciam promissoras 10 ou 15 anos atrás e hoje nao existem mais?

Palpites Ações disse...

Henrique,
A escolha das ações tem que ser critoriosa, isto é, estudar os balanços das empresas trimestre a trimestre.Não basta comprar e manter e esquecer a ação na carteira. Tem que realizar o acompanhamento desses ativos. Se uma empresa tem bons balanços, o risco dela quebrar é muito pequeno.

Bons Negócios.